Doze anos de escravidão

De Steven McQueen (EUA, 2013)
texto por Ricardo Hankon

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“12 anos de escravidão” de Steven McQueen estreará oficialmente nesta sexta-feira (21/2). O longa traz a história, baseada em fatos, de Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor), homem livre que tem sua vida transformada (tomada) após ser sequestrado e escravizado por doze anos.

É habitual em qualquer narrativa termos a construção de uma personagem; através de suas ações ela se revela e se desenvolve. Em “12 anos” isto não ocorre. Solomon é desconstruído a cada cena,  despojado de sua existência e de tudo que nela havia, inclusive seu próprio nome (Solomon a Plat).

Ele se assemelha a Gregor Samsa de Kafka que de um dia para outro deixa de ser um homem para tornar-se um inseto. Solomon dorme como um homem livre e acorda como escravo, propriedade, objeto, tão magicamente como a novela de Kafka. Sua história, sentimentos, família, em suma: tudo que lhe configura humano não existe mais, não neste novo universo de Louisiana de 1841.

Quem nasceu numa cela está acostumado a ver o sol por ângulos retos e delimitados. Mas quem experimentou o outro extremo não poderá fazê-lo, não sem muita dor, e McQueen plastifica magnificamente este sentimento em sua obra. Alguns até podem reivindicar que haja demasiada violência, até mesmo gratuita, mas talvez isto não pudesse ter se dado de maneira diferente, pois a violência aqui além de gratuita é naturalizada. Edwin Epps (Michael Fassbender) quando questionado pela sua violência e se não temeria a ira de Deus, apenas ri e diz que não há como ser castigado pela maneira que usa sua propriedade; revela-se que não há qualquer espaço para empatia neste universo, sendo uma transgressão cogitar-se, então, compaixão.

As atuações são excelentes, assim como a reconstrução histórica e a trilha sonora (que nos leva as origens da música gospel negra) dando a verossimilhança capaz de transportar o espectador a 1841. Mas a ilusão é tênue demais, a condição de Solomon nos desperta ao nosso século, pois a revolta percorre cada minuto da película. Além disso, não haveria como não dizer que cada personagem do filme se debate e luta (como pode) contra a escravidão. Uns se calam; outros não existem; outros aceitam condições menos favoráveis para se manterem vivos, mas de modo geral todos pressionam Solomon, ao que parece sua personagem por ter tido uma vida em liberdade carrega consigo um peso que outros não possuem.

Deus também é uma personagem importante na trama. Deus é algoz, é salvador, é o legitimador deste mundo, é a esperança e a personificação dos desejos humanos.

“12 anos de escravidão” traz o desconforto da abominação que foi legitimada e naturalizada no cotidiano, e que além disso podíamos trocar as personagens e com poucas alterações trazê-la à tona na atualidade, à nossa sociedade.

9_10

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